Essência ou Sentido da Vida?

Com freqüência, as pessoas se perguntam: “O que é a vida?” Nada mais justo e apropriado, afinal de contas, estamos todos vivendo, correto? Ao avaliar um pouco mais esta questão, concluem que a vida, por si só, é algo transitório, efêmero. “Estamos nesta vida de passagem”, dizem. “A única certeza que temos da vida, é a morte”, comentam.

Pode soar assustador, mas temos que concordar que, na realidade, a vida, em sua essência, nada mais é do que um período de tempo em que o organismo, que chamamos corpo, realiza trocas metabólicas. Não se trata de um pensamento disfuncional1 ou irracional. Quanto mais tenta-se descobrir a essência da vida, mais o indivíduo se aproxima da idéia de Schopenhauer, que concluiu que a humanidade oscila entre a necessidade e o tédio.

Mas será que o sentido da vida é algo a ser descoberto? E ainda, qual a diferença entre “essência da vida” e “sentido de vida”?

Essência é aquilo que as coisas são de fato, sua natureza. É uma identidade material que define o objeto ou o ser. É, portanto, algo concreto, que podemos conhecer através de uma investigação racional e, por vezes, científica. Logo, é algo passível de ser descoberto e talvez o máximo que podemos descobrir é que a vida não passa de um breve intervalo de tempo, onde o nosso organismo realiza reações químicas, em um meio aquoso. Se ficarmos apenas com essência da vida, não iremos viver. Iremos sobreviver. Dia após dia, iremos trabalhar para cumprir nossas necessidades fisiológicas: comer, beber, respirar, ficar aquecido... E quando tudo isso estiver satisfeito: tédio. Um vazio existencial. No dia seguinte, mais um capítulo na luta pela sobrevivência. E o título deste capítulo será o mesmo do dia anterior: “Trabalhar para pagar as contas”. Água, luz, supermercado, condomínio etc. Tudo isso visando a sobrevivência. Talvez também paguemos a TV a cabo, o cinema, a cerveja, o ingresso do show, enfim, atividades de lazer. Vale ressaltar que lazer é bom. Muito bom, sem dúvida! Mas quando o lazer tem a simples finalidade de nos proteger do vazio existencial, ele passa a ser um meio de sobrevivência, isto é, uma série de comportamentos de fuga e/ou esquiva do tédio e da angústia, oriundos deste vácuo existencial.

Sentido, por outro lado, é a finalidade, o propósito de algo. É aquilo que decidimos fazer com um objeto ou ser. É o “para quê”. Sendo assim, o objetivo é sempre atribuído. Quem nunca usou um papel para calçar de uma mesa ao invés de usá-lo para ler e escrever? Ou, ainda, quem nunca utilizou a ponta de uma faca para parafusar ou desparafusar? Somos nós que atribuímos sentido ao nosso meio. Somos nós que atribuímos sentido às nossas vidas. Ao atribuir um sentido para a vida, não iremos sobreviver. Iremos viver. O significado que se concede à vida irá definir o como viver. Dessa forma, o indivíduo pode avaliar, sob um ponto de vista singular, aquilo que lhe é importante, o que é um problema, quem manter próximo, que oportunidades abraçar, o que é prioridade... O sentido da vida não é universal, como a essência. Ele é particular a cada pessoa. O sentido da vida nos permite ter um “porquê acordar hoje”. Nos motiva a ir além da simples sobrevivência.

O pensamento disfuncional está, portanto, na confusão entre essência e sentido da vida. É isto que nos aflige emocionalmente e que nos impede de construir um sentido. Por ser algo tão simples e com uma essência tão efêmera, a vida nos possibilita uma multiplicidade de significados.

Podemos, sobreviver ou VIVER. Você já revisou sua trajetória de vida? Vale a reflexão! “Quais são os meus valores?” “Como estou vivendo?” “O que eu gostaria de fazer?” “Quais os meus sonhos?” “O que me faz feliz de verdade?”

Você pode passar pela vida e sobreviver… Ou pode fazer dela uma experiência incomparável, prazerosa e cheia de sentido!

 

1 Pensamento Disfuncional: termo cunhado por Aaron Beck que define o pensamento que, de algum modo, representa uma avaliação distorcida da realidade, gera sofrimento emocional e/ou atrapalha o indivíduo na concretização de seus objetivos.


 

Autores
ARIOVALDO LUNARDI FILHO Psicólogo clínico e professor universitário, especialista em Terapias Cognitivas pela USP-IPq-AMBULIM.
LÍVIA DUARTE TEIXEIRA LUNARDI Psicóloga Organizacional com Especialização em Qualidade de Vida no Trabalho pela FIA/USP. Reúne experiência em Recursos Humanos e Qualidade de Vida de empresas nacionais e multinacionais, com forte atuação nos rankings das Melhores Empresas para Trabalhar e Estagiar.

Referências Bibliográficas:
BECK, Judith S. Terapia cognitiva: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 1997.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. 50 ed. São Paulo: Vozes, 2000.

Palavras chave: terapia cognitiva, logoterapia, construtivismo, cognitivismo,  psicoterapia, significado, crenças, felicidade

Como citar este artigo:
LUNARDI FILHO, Ariovaldo, LUNARDI, Lívia Duarte Teixeira. Essência ou sentido da vida? Lunardi Psicologia. Nov. 2011. Disponível em <http://www.lunardipsicologia.com.br/conteudo.php?id=53&tipo=A&acao=detalhes>. Acesso em: “Dia” do “Mês” de “Ano”.


 

 

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